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A Associação Carcará iniciará no ano de 2018 suas atividades editoriais, coordenadas por Eduardo Liron, responsável por nosso comitê editorial. Serão dois selos: “Pega, mata e come” e “Políticas sensíveis”.    

A primeira obra a ser lançada por nossa associação, com previsão a partir do mês de abril, será “O que vi: diário de um espectador comum”, do escritor e professor de Estética da UFRN, Eduardo Pellejero, que dará início  ao selo “Políticas sensíveis”.   

Diário filosófico-literário, montagem de experiências visuais no museu Reina Sofia de Madri, “O que vi” propicia uma singular compreensão de alguns dos impasses da estética e da filosofia da arte contemporânea, a partir de uma narrativa poética sobre o olhar e sobre as possibilidades de uma escrita  do sensível.  

Em breve nas livrarias  e também pelo site da associação.

 Imagem:  El Greco. Vista e Plano de Toledo. 1610

Confira um trecho:   

Merleau-Ponty estava convencido de que a arte era capaz de instruir-nos sobre o compromisso perceptivo do nosso corpo no mundo. Com isso queria dizer que as obras não só mostram o que mostram, mas que mostram também como aparece o mostrado a um corpo como o nosso. Não é algo que possa assegurar a nossa emancipação, mas seguramente constitui um ponto de partida tão bom como qualquer outro.

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Exemplo. Entramos na escuridão de uma sala de cinema, deixando em suspenso o nosso dia-a-dia.  As imagens cintilam ante nós, ilustrando ou contrariando as inflexões da intriga, pontuadas pelas modulações da música. Acompanhamos com maior ou menor atenção a história, nos perdemos em pensamentos próprios ocasionalmente, fazemos o filme. Duas ou três horas depois a tela fica em branco, ilumina-se a sala, deixamos a nossa poltrona, saímos à rua. Durante algum tempo, as imagens da realidade podem chegar a oferecer uma continuidade paradoxal ao que vimos, assim como serem assombradas pelos fantasmas que nos interpelaram na intimidade partilhada da sala. E, se a nossa jornada não acabar, quiçá a sensação de estranheza seja ainda mais intensa. Não são apenas os nossos olhos, então, os que devem habituar-se à luz do dia; são todas as nossas faculdades as que devem voltar a organizar-se em torno de fins mais ou menos comuns, mais ou menos diurnos.

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Hoje as imagens constituem uma peça essencial na articulação das sociedades em que vivemos. Encontram-se no centro das nossas práticas existenciais, culturais e políticas, ocupam o nosso tempo, conformam o nosso desejo, dão forma ao mundo. Enchem o olho. Afirmam, cinicamente, uma realidade deslumbrante na qual ninguém acredita,  nem sequer aqueles que aderem incondicionalmente ao espetáculo. Mas não lhes falta realidade. Pelo contrário, são terrivelmente efetivas. E cada vez mais é mais difícil olhar para outro lado – até pestanejar se tornou complicado. Porém, o verdadeiro problema não está nas imagens, mas no exercício do nosso olhar. 

PELLEJERO, Eduardo. O que vi: diário de um espectador comum. São Paulo: Ed. Carcará, 2018.

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